Monday, 16 October 2017

Males e Bem

Estou a escrever este texto às 19.30h do dia 16 de Outubro de 2017. Hoje morreram 32 pessoas em Portugal devido aos fogos florestais. Este número soma-se aos 60 que morreram há três meses atrás, no início do Verão, também devido aos fogos florestais. Sinto uma mágoa tao grande dentro de mim, uma dor tão profunda, uma revolta tão histérica que sinto a necessidade de escrever. Aqui ficam os meus pensamentos, porque se os guardo todos para mim acabam por me consumir.

Acho sinceramente que o que aconteceu em Portugal este Verão, culminando na tragédia de hoje, tem de significar a queda do Governo. Não que eu ache que a culpa seja só do PS mas de momento é o PS que está no Governo e é por isso responsável pelo País.

A primeira e mais fundamental responsabilidade do Estado – e consequentemente do Governo – é a protecção dos seus cidadãos. 100 dos meus concidadãos morreram este Verão sem que o Estado tenha sido capaz de os proteger. Assim sendo, cabe ao Governo assumir a responsabilidade e demitir-se. Não me interessa minimamente se politicamente até dava jeito, se voltariam a candidatar-se nas próximas eleições e ganhariam, não é isso que está em questão. Nem aceito como argumento a instabilidade politica e económica que causaria a queda do Governo. Para mim, o Estado falhou e por isso o Governo cai.

Não, esta não foi uma fatalidade. Não, Pedrógão não foi um acidente. Não, já chega, não nos façam de parvos. O que aconteceu podia ter sido previsto, podia ter sido evitado. Morreram 100 pessoas. 100! Morreram 100 pessoas porque o Estado não as protegeu, porque o Estado foi incompetente e ineficaz. Não foi um acidente natural, não foi um terramoto que aconteceu de um dia para o outro, não foi um atentado terrorista que era impossível prever.

Morreram 100 Portugueses.

Não nos podemos esquecer deste número. Morreram 100 pessoas vítimas dos fogos florestais. A fugir das suas casas. Em desespero. A proteger o que tinham. A correr na direcção do fogo. A sufocar com o fumo. A salvar os seus familiares. A gritar por ajuda.

100 pessoas.

Os fogos florestais não são acidentes naturais. Alguns, poucos por ano, serão causados por causas naturais. A vasta maioria são resultado da acção humana – seja ela mão criminosa que lança o fogo, ou descuido no tratamento das matas, ou falta de meios, ou descoordenação dos meios que há. Todos os anos, sem excepção, o flagelo dos fogos florestais ataca Portugal. É assim há anos, só que normalmente não morrem pessoas às centenas. Este flagelo é previsível, é possível de ser controlado através de acções concertadas do Estado e através de planeamento efectivo.

Ouvi hoje declarações terríveis dos nossos líderes. Desde “temos de estar preparados porque vão acontecer mais dias como os de hoje” até “as populações têm de se defender, não podem esperar pelos bombeiros”. As férias da Sra Ministra não me merecem comentário. Quanto às outras declarações, deveriam ser por elas próprias razões para vergonha, senão para demissão. São outro exemplo do Estado a falhar aos seus cidadãos. Claro que as populações devem esperar pelos bombeiros! Eu não estou preparado para combater incêndios, provavelmente faria coisas que não deveria, como correr na direção contraria à da segurança. Ou conduzir em estradas cercadas pelas chamas.

Como fizeram 100 dos meus concidadãos.

Claro que a demissão do Governo não resolve o problema. Claro que não. Mas num país civilizado e orgulhoso de si próprio, a esperteza, a ineficácia e a incompetência não são recompensadas, são punidas. O Estado deveria ser um exemplo para os seus cidadãos. É importante saber que cidadãos o Estado quer ter, e essa resposta depende também das próximas horas.

Mas não deveríamos ficar por aqui.

O problema é também educacional. O problema é também estrutural. O problema é também judicial.
Nas escolas, desde pequenos, ensinemos a importância do bem comum e da partilha. Ensinemos a importância da floresta. Ensinemos que todos temos o dever de proteger o que é de todos e que todos somos responsáveis. Quanto à estrutura, vamos reler todos os infinitos relatórios que se seguem às tragedias e vamos tentar implementar algumas das sugestões. Vamos usar o dinheiro dos contribuintes para treinar mais e melhores bombeiros. Vamos definir claramente responsabilidades do Governo central, das administrações locais, da protecção civil, do exército, das polícias. Vamos investir em meios de combate aos incêndios. Vamos lançar campanhas de sensibilização e educação. Vamos trabalhar no Inverno para estarmos seguros no Verão. Quanto à justiça, vamos levar os criminosos a tribunal e punir os culpados. Vamos alterar a moldura penal se esta não serve.

Diz-se no meu Português que “há males que vêm por bem”. Típico do ser Português, ter esperança nas horas negras, acreditar em dias melhores…

Morreram 100 pessoas. Eu digo – vamos honrá-las! Vamos agir. Vamos exigir. Vamos para a rua, vamos organizar uma manifestação monumental, em todas as capitais de distrito. Vamos no próximo Sábado para a rua, marchar em protesto pelo falhanço do Estado. Vamos mostrar que nós, cidadãos, exigimos mais do Estado. Não contra partidos políticos ou indivíduos, mas contra a incompetência. Vamos unir o país nesta causa, vamos respeitar os mortos, vamos lembrar cada um deles como razões para mudar para melhor.

Temos 100 razões para mudar, cada uma delas com uma cara e uma história. Se os honrarmos, talvez este mal possa trazer algum bem.


Bruxelas, 16/10/2017

Friday, 24 June 2016


Nacionalismo e Xenofobia

Sim, para mim estas duas correntes são as grandes vencedoras do referendo no Reino Unido. Através do voto popular – já lá vamos…. – os Britânicos decidiram deixar a União Europeia e caminhar sozinhos.

Ponto prévio: estão nesse direito e, embora discorde, há que aceitar a vontade da maioria.
Muito se tem falado dos porquês do desejo agora materializado de deixar a União. Ouvi várias vezes falar no “défice democrático” e em “instituições burocráticas e opacas”. Na minha óptica estas foram as razões politicamente correctas dadas com o objectivo de esconder as verdadeiras motivações: nacionalismo e xenofobia.


Primeiro: A grande falácia: Os eleitores do Reino Unido decidem abandonar a UE porque não se sentem representados de forma democrática, por não elegerem directamente os seus representantes em Bruxelas? Palermice, claro que não! Primeiro porque os representantes do RU na UE são efectivamente eleitos de forma democrática através das eleições europeias (para o Parlamento Europeu) e das eleições nacionais (que elegem os líderes que representam o país no Conselho). Resta a Comissão Europeia onde o RU tem um comissário, tal como todos os outros estados-membros ainda que nenhum deva representar o país de origem mas sim o bem comum. Mas mais que isso, o RU tem como chefe de Estado a Rainha! O país é uma (orgulhosa) monarquia! Ainda que seja mais figura decorativa que entidade política, ninguém elegeu a Rainha e isso não faz dela menos representativa do povo britânico! E pior, o sistema político Britânico consiste em duas câmaras parlamentares, uma delas sendo a House of Lordes onde NENHUM membro foi eleito! Ora, se nada disto perturba os imperturbáveis Britânicos no cenário nacional, porque raio haveria de o fazer no cenário Europeu?!

Segundo: Se não há confiança nos líderes nacionais, porque como se diz em Portugal “eles são todos iguais, são todos corruptos e roubam o povo!”, então não seria melhor que as decisões políticas fossem tomadas à distância por aqueles que não têm um particular interesse pessoal nas questões e logo sejam menos corruptíveis? Parece-me e que não se confia mais em ninguém….

Terceiro e mais importante: Nacionalismo e Xenofobia. Este referendo foi ganho por uma mensagem única – não queremos mais emigrantes! “O país é nosso e só nós é que podemos cá estar”. Isto é perigosíssimo e traz de volta a dialéctica idiota do Nos vs Eles. Não interessa muito quem são o Nós e o Eles, mas cria-se uma falsa sensação de pertença àqueles que são parecidos connosco e uma rejeição daqueles que são diferentes. “Eu posso estar neste país pura e simplesmente porque nasci aqui, mas o outro tipo que aconteceu nascer noutro país não pode vir pra cá!”; “Se vier, vai-me tirar o trabalho e viver há minha custa” (note-se que isto só é um problema se o ‘outro’ for diferente, se se chamar Ahmed ou Alejandro, porque se se chamar Steven e for dependente do Estado ou se for o John saído da universidade de Leeds que aceita um salário mais baixo aí já não há escândalo, é a vida…)! Quem votou Leave votou porque não quer mais partilhar o seu país, porque associa a UE a uma invasão de emigrantes pobres e desesperados. Votam Leave porque querem um país que ouviram nas histórias dos avós, um país maioritariamente branco, cristão e que beba chá. Mas a identidade nacional não se faz de um conjunto de pré-requisitos físicos, faz-se de um sentimento comum de partilha. Muitos dos Britânicos de hoje já foram cidadãos de outros sítios. É muito triste ver que a retórica fácil e ignorante de criar divisões nos povos, de criar identidades por oposição aos outros e não por partilha com os outros sejam hoje dominantes dos dois lados do Atlântico. É triste ver como nós, os ricos do Mundo, não queremos partilhar essa riqueza com quem tem menos – um dos pilares dos valores cristãos! – que nos tenhamos tornado tão egoístas que queiramos fechar portas e janelas e que diminuamos o Mundo ao nosso redor imediato. O Nacionalismo e a Xenofobia marcaram o Século XX na Europa: Guerra Mundial I e II; Guerra Fria; Guerra dos Balcãs. O que aprendemos com isso?... Como dizia um poster que vi há uns tempos: O Nazismo não começou com câmaras de gás, começou com propaganda nacionalista, com o virar de uns contra os outros e com a dessensibilização dos indivíduos.

Quarto: A democracia directa soa muito bem mas não pode ser usada para tudo! Cameron apostou (e perdeu) tudo no voto popular. Ora este assunto da pertença à UE não pode ser explicado em campanhas de três semanas, não pode ser entendido por todos, é um assunto extremamente vasto e técnico – não pode ser imposto às pessoas que decidam sobre ele! Ninguém acharia normal um referendo a perguntar “ Acha que o alcatrão usado nas estradas deva ser produzido em fornaças industriais amarelas e que seja misturado com areia vinda das montanhas do Norte; ou não?”. Toda a gente tem uma opinião mas é uma opinião ignorante, eu tenho pra mim que os engenheiros civis saberão mais sobre o assunto do que eu!.... Na questão da UE, e sendo um assunto tão mas tão complexo, a decisão deveria ser tomada pelos nossos representantes eleitos no Parlamento, é para isso que lá estão, é para isso que são eleitos de forma democrática! Referendos não são o corolário da democracia, são a desvirtualização da democracia e a forma mais absurda de justificar aquilo que não tem justificação política. Sugiro já aqui o próximo referendo, continuemos a surfar a onda: “Gostava de receber um salario maior ao fim do mês: Sim ou Não?”.

Tuesday, 22 March 2016


Day 3 in Seychelles: #JeSuisBruxelles

And then, one moment to the other, it all stopped making sense. We were arriving to yet another beach, we had rented a car for the day so we could visit the whole of the island, when a text message came. That was how we were told about the Brussels bomb attacks.

The first reaction was naturally shock, then confusion, then anger. And then silence. What could we tell each other? We felt so powerless and so distant. The beach was stunning but who cares?...

It is funny to discover how much we care for Brussels and for our family of friends there. We may bash the town all the time, think about life in other places, but today we realized that we are also Bruxellois and our home was under attack. We were at the check in area in Zaventem on Saturday morning. We use the Maalbeek metro station often, it used to be my metro station when I lived in that area not that long ago. And now, these places join the infamous list of terror attacks. A list that just doesn’t stop growing.

All that mattered was knowing that our friends were well and safe. We drove to a resort so we could use the internet there and be reachable. And we both had to control the tears when we saw the unbelievable number of messages from people that care about us. It was a humbling moment. People that we haven’t seen in a long time, people who we haven’t talked to in a long time, but people that still were worried about us and our safety. Thank you to all of you.

Facebook can be a tool of ignorance and a tool of hatred. I had many rants about its power and how it gives people a stage to display their prejudices. But today we also saw the other side of Facebook, the human side and the role it can play in bringing people together. As we saw, one by one, our friends checking themselves safe on Facebook we started calming down. As of now, when I write this, none of our friends and acquaintances has been victim of these horror attacks.

But we also know that this blessing is also a matter of luck. Pure luck. It could have been them, it could have been us. It wasn’t. It was over 250 others. People like me, who walk the same streets I do, take the same metro, fly from the same airport. They are not numbers, they have names and faces and families. Tonight there is no joy, only sorrow.

The only way to fight ignorance is through knowledge. You can only fight hatred with understanding and tolerance. We will win, not because they will stop but because we won’t. This is obviously not over, there will be more attacks and more victims. And of course, as long as there are conflicts where everyday people die for no other reason than the power and glory of a bunch of wankers, anger will continue to thrive. But what we can do, all of us Bruxellois, is to wake up tomorrow – in Brussels or in the Seychelles – and to continue living our lives loving each other and pursuing happiness. That is what we intend to do.



Seychelles
22/03/2016

Monday, 21 March 2016


DIA 1 NAS SEYCHELLES

Hoje cheguei ao Paraíso. Felizmente isto não é um texto escrito do Além -  onde decerto serei um dia recompensado pelas minhas boas acções terrenas. Não, vivinho da Silva, cheguei hoje às Seychelles!



Foi um dia longo, saímos eu e a Maiju de Bruxelas no Sábado e só aterrámos aqui no Domingo. Viagem longa até AbuDhabi e depois mais umas horas valentes no aeroporto. Mini-notas:

  • -          TV em tempo real no avião!! Juro que nem vi nenhum dos filmes que dava pra ver, fiquei-me por ver televisão como se estivesse sossegadinho na sala lá de casa. Mas não, estava mesmo a voar pelos céus Europeus e a ver um jogo da Premier League em directo. Impressionou-me mesmo, é fantástico ver estas evoluções a acontecer como se não fossem nada de mais. (eu ainda sou do tempo em que voar era um luxo e até havia divisórias para fumadores e não fumadores na mesma cabine)
  • -          Por falar nisso, se há coisa que eu não percebo nos aviões é porquê que no cubículo da casa de banho ainda existem cinzeiros?! Ou andamos todos a voar em relíquias dos anos 90 ou alguém se esqueceu de dizer ao gajo que faz as portas da casa de banho que já não é preciso lá pôr aquela merda. Não faz sentido nenhum, as mensagens audio avisam que se um gajo fumar um cigarro na retrete vai de cana, mas depois deixam lá ficar o cinzeiro, mesmo pra testar a força de vontade do fumador mais agarrado! Puro sadismo.
  • -          Chegados a Abu Dhabi demos um saltinho ao Yas Mall que não era longe do aeroporto. De vez em quando um gajo descobre que os centros comerciais são como os vegetais do Entroncamento – alguns são grande pra caralho! Na minha ordem de dimensão de centros comerciais, e respeitando a sagrada regra cronológica, isto vai assim: Fonte Nova > Amoreiras > Colombo > Yas Mall. Mas sem Continente. E sem cinemas com chungos. E com muito nível. E estilo. E luz e cor. E brilho. E vontade de lá ficar. Ok, se calhar há ali uns níveis entre o Colombo e o Yas Mall, mas isso fica pra outro dia.
  • -          O avião de Abu Dhabi pra Mahé atrasou duas horas. A mim não fez diferença nenhuma, em vez de chegar ao Paraíso às 7 da manhã cheguei às 9. Mas havia ali um grupinho de ansiosos que se revoltavam de maneira discreta, com o abanar de cabeça e com o look “fico fodido com isto” pras respectivas companheiras. Uns destes heróis chegaram a tirar fotos ao ecrã onde se referia o atraso e foram mesmo falar com o tipo da Etihad para pedir compensação pelo atraso, como se estivessem na UE. Ah pois é, agora já gostamos da UE? Agora a UE já dá jeito e tem coisas boas. “Ah não é assim no Mundo todo? Que atrasados estes gajos, nós na UE não somos encavados assim! Agora já gosto da UE. Mas só até amanhã, depois lembro-me outra vez que são todos iguais esses gajos em Bruxelas e só nos lixam a nós, o povinho nos nossos países, pá!”

Pronto, depois chegàmos a Anse Royale – vulgo, Paraíso. Porra, isto é mesmo lindo. Um gajo pode ver fotos na Volta ao Mundo, ouvir falar disto pela Cristina lá do escritório que se casou com o Jaime no Verão passado e foram lá às Seychelles, ou ás Maldivas, a uma dessas ilhas pra casais... Mas nada te prepara para as cores que vês quando aqui chegas. Sim, a areia é branca e não castanha clara. O mar é Turquesa, aquela misturada de azul e verde onde os barcos não conseguem entrar e ficam ali a pairar. As florestas à volta são verdes Jurassic Park, cheias de fetos e palmeiras. Nao há muito mais a dizer, a única coisa a fazer é tentar aproveitar ao máximo estes dias aqui e flutuar muito, snorklar muito, nadar muito, ler muito, descansar muito. E é mesmo isso que eu planeio fazer!



Estou a escrever isto à noite na varanda do nosso apartamento, ainda tá um calor valente. Mas não estou sozinho. Estou rodeado de geckos, uns dez a passear por aqui nas paredes. É um bicho engracado, lagarto estilo ninja, patas de seda que um gajo quase não dá por ele. Só quando se põe a coaxar numa de esquizofrenia convencido que é sapo. Gosto dos geckos e temos um inimigo comum – o mosquito. Eu e os geckos somos tão mais felizes quanto mais mosquitos forem desta pra melhor: a mim já não me sugam o sangue e enchem o bucho do gecko. Já dizia o Sun Tsu - ou então era outro gajo qualquer mas nisto das referências históricas o melhor é atirar um Sun Tsu ou Churchil e em princípio acerta-se – inimigo do teu inimigo, teu amigo é.

 Anse Royale
20/03/2016


Monday, 29 June 2015

Tsipras e o referendo grego

O que se está a passar na Grecia, para mim, não é mais do que um grupo de rapazes inteligentes e extremamente irresponsáveis a brincar ao populismo sem se preocuparem muito com as consequências. Simples.

Podem-se queixar das troikas o mais que quiserem mas é preciso ser bastante inocente para acreditar que alguém vai doar biliões…. Mas já alguém viu isso a acontecer?! Há fome e doença espalhada pelo mundo há decadas e que podia ser combatida com dinheiro, mas isso nunca aconteceu – porque raio é que agora se espera que o dinheiro seja doado a um país bastante desenvolvido (por comparação)?!

E por falar em comparação, se eu for a um banco pedir um empréstimo, não me estou a colocar nas mãos da entidade que me empresta o dinheiro de que preciso? Cabe na cabeça de alguém voltar lá seis meses depois e querer renegociar valores e prazos contra a vontade de quem me emprestou o dinheiro quando eu precisei?

Tsipras é um populista puro, ao nível dos demagogos da extrema esquerda e extrema direita. Um Farage, um Le Pen, um Bové, um Jerónimo. Nenhum deles deveria algum dia poder chegar perto do poder, mas…

Esta ideia do referendo é a mais cobarde e patética que se possa imaginar. Seis meses atrás (Janeiro!) a população grega elegeu Tsipras e os seus compinchas para liderar o governo. Ele prometeu rejeitar acordos que fossem contra os interesses da Grécia. Prometeu (sim, prometeu!) fazer ver aos credores que ele tinha planos alternativos que eles iriam aceitar. Prometeu levar a luta até às últimas consequências. Ele queria ser um líder daqueles que estavam revoltados e frustrados.

Passaram seis meses. Os credores não cederam – para surpresa de ninguém – e agora Tsipras, quando precisa de tomar decisões, passa o jugo da decisão para os cidadãos através de um referendo?! 

Tsipras tem a legitimidade necessaria para tomar as decisões difíceis que tiver de tomar, foi-lhe dada através do voto popular! Anunciar o referendo, anunciar que vai fazer campanha pela rejeição das propostas europeias (porque nao rejeitá-las em bruxelas?!), gastar tempo e dinheiro numa consulta popular sobre um tema tão delicado e técnico como a crise financeira grega, isso sim é uma tragédia!

Eu trabalho em Bruxelas, sigo estes desenvolvimentos políticos de perto, tenho interesse nesta área, tenho experiência – e ainda assim não entendo metade das exigências gregas ou dos credores! Por amor à Santa, mas o desgraçado do grego comum, em Atenas ou no interior, ou nas ilhas perto ou distantes, tem alguma preparação e informação para poder decidir desta forma o destino do seu país? Não foi para isso que elegeram um governo, para representar o interesse do país?! E já agora, é importante salientar que a Comissão Europeia publicou, no Domingo, documentos que mostram que aquilo que Tsipras levou para Atenas para abanar no ar enquanto grita lugares-comuns não corresponde à proposta final dos credores...

Ainda há quem defenda as “tácticas” de Tsipras e Varoufakis. Haverá quem ache que são eles os protectores dos pobres e oprimidos. E de certeza quem gostaria de ver um cenário semelhante em Portugal. Eu não sou um deles. 

Thursday, 2 April 2015

O Mestre

Faleceu hoje aquele a quem chamam o Mestre, o realizador Manoel de Oliveira (MO). Morreu calmamente, em casa no Porto, aos 106 anos.

Ora eu não quero fazer-me passar por um intelectual que não sou, por um cinéfilo que um dia gostava de ser sabendo que esse dia não sou hoje. Fica aqui a minha declaração de interesses – nunca vi um filme inteiro de MO, vi apenas partes, nunca fui ao cinema ver um filme de MO, as partes que vi foi sempre na televisão, e entediei-me de morte a vê-las!

A minha admiração por MO não é pois enquanto apreciador da sua obra, não. A minha admiração deve-se ao que considero ser uma postura de coerência que MO sempre adoptou. MO fez filmes desde os anos 40 tendo estreado a sua última obra em 2014. Quando MO começou a fazer cinema o som nas películas era ainda recente, a cor era ainda uma fantasia distante. Hoje estamos na era do ultra digital, do 3D, do surround sound. Que mais não fosse, MO seria sempre um exemplo pela capacidade de adaptação que demonstrou ao longo da sua carreira e que lhe permitiu assinar obra atrás de obra atravessando todas as tempestades tecnológicas que lhe apareceram pela frente.

E o que eu quero ressalvar é que essa adaptação nunca pôs em causa os princípios e a visão de MO. Os seus filmes estão longe de serem do agrado do público geral (onde eu também me incluo). MO tinha uma visão extremamente teatral, sabia quais eram as histórias que queria contar, nunca pretendeu filmar a vida como ela é no dia-a-dia mas sim como ela existe nas páginas dos livros e peças que o inspiraram. MO foi sempre mais admirado fora de Portugal do que dentro, por um público diferente do que aquele que consome cinema em Portugal. E perante tudo isto, MO raramente criticou o público português, jamais considerou auto exilar-se como vingança pela falta de reconhecimento. E acima de tudo jamais alterou a sua forma de fazer cinema. Ele sabia que as suas histórias seriam criticadas por muitos e entendidas por muito poucos. Mas a sua obra é o grande testemunho de um homem que acreditou em si mesmo e que até ao sopro final aceitou esse encargo de lutar a sua batalha em solitário em nome da sua visão artística e coerência intelectual.

Hoje são milhares aqueles que expressam pesar pela morte do Mestre. Hoje, MO é consensualmente considerado o maior realizador português de sempre. Hoje e sempre – mesmo que nunca tenhamos visto Aniki Bobó, Os Canibais, ou Party – reconheçamos Manoel de Oliveira como um Português exemplar que viveu de forma coerente a vida que sonhou.


ANC
Bruxelas, 02 Abril 2015

Saturday, 11 October 2014

O Salão do Terror

Hoje fui a um Instituto de Beleza. Antes chamava-se cabeleireiro…

Deparei-me com a definição de negócio mal gerido. Trabalham lá 6 profissionais da beleza!! Nenhuma bonita ou arranjada. O que me faz pensar… Espera-se que quando se entra num instituto de ioga se relaxe, quando se entra nas piscinas se molhe. Aqui há sem dúvida um caso de publicidade enganosa!

Das 6 profissionais de beleza: uma cortou-me o cabelo. Uma sentou-se em frente à caixa. Duas brincaram com os telemóveis (sessão selfie incluída) e as outras duas, espante-se, lavaram o cabelo uma à outra!

Há também aquele sítio misterioso por detrás de uma porta para onde senhoras entram e, juro, nunca vi nenhuma a sair. Qualquer homem que tenha ido a um cabeleireiro sabe do que estou a falar. Nunca ninguém nos explicou o que se passa nessas salas – nós calculamos que se arranjem as unhas ou sejam salas de depilação – mas pode ser qualquer coisa!!!

Depois há também aquele ritual da moeda no bolso da senhora que me cortou o cabelo. Ora eu já paguei o serviço, porquê que tenho de dar um extra à profissional de beleza?!. Sinto-me um pouco desconfortável em meter a mão pelo bolso da senhora adentro e sussurrar-lhe ao ouvido “isto é pra si, obrigado!”. Isto noutro contexto daria que falar, sem dúvida…

E que saudades dos barbeiros… não fossem eles tão brutos e as ferramentas tivessem menos ferrugem e sangue esbatido e eu usava os seus préstimos. Também não vou aos barbeiros da moda onde o tipo demasiado cool e hipster com bigodes que dão voltinhas e que usa colete por cima da camisa e sapatos sem meia me vai cobrar 100 euros pra me aparar o pêlo….


E, por isso e infelizmente, vou ter de continuar a sofrer estas indignidades uma vez por mês. A menos que alguém tenha uma solução para mim! Alguma ideias brilhante!?