Males e Bem
Estou a escrever este texto às 19.30h do dia 16 de Outubro de 2017. Hoje morreram
32 pessoas em Portugal devido aos fogos florestais. Este número soma-se aos 60
que morreram há três meses atrás, no início do Verão, também devido aos fogos
florestais. Sinto uma mágoa tao grande dentro de mim, uma dor tão profunda, uma
revolta tão histérica que sinto a necessidade de escrever. Aqui ficam os meus
pensamentos, porque se os guardo todos para mim acabam por me consumir.
Acho sinceramente que o que
aconteceu em Portugal este Verão, culminando na tragédia de hoje, tem de
significar a queda do Governo. Não que eu ache que a culpa seja só do PS mas de
momento é o PS que está no Governo e é por isso responsável pelo País.
A primeira e mais fundamental
responsabilidade do Estado – e consequentemente do Governo – é a protecção dos
seus cidadãos. 100 dos meus concidadãos morreram este Verão sem que o Estado
tenha sido capaz de os proteger. Assim sendo, cabe ao Governo assumir a
responsabilidade e demitir-se. Não me interessa minimamente se politicamente até
dava jeito, se voltariam a candidatar-se nas próximas eleições e ganhariam, não
é isso que está em questão. Nem aceito como argumento a instabilidade politica
e económica que causaria a queda do Governo. Para mim, o Estado falhou e por
isso o Governo cai.
Não, esta não foi uma fatalidade.
Não, Pedrógão não foi um acidente. Não, já chega, não nos façam de parvos. O
que aconteceu podia ter sido previsto, podia ter sido evitado. Morreram 100
pessoas. 100! Morreram 100 pessoas porque o Estado não as protegeu, porque o
Estado foi incompetente e ineficaz. Não foi um acidente natural, não foi um
terramoto que aconteceu de um dia para o outro, não foi um atentado terrorista
que era impossível prever.
Morreram 100 Portugueses.
Não nos podemos esquecer deste número.
Morreram 100 pessoas vítimas dos fogos florestais. A fugir das suas casas. Em
desespero. A proteger o que tinham. A correr na direcção do fogo. A sufocar com
o fumo. A salvar os seus familiares. A gritar por ajuda.
100 pessoas.
Os fogos florestais não são acidentes
naturais. Alguns, poucos por ano, serão causados por causas naturais. A vasta
maioria são resultado da acção humana – seja ela mão criminosa que lança o
fogo, ou descuido no tratamento das matas, ou falta de meios, ou descoordenação
dos meios que há. Todos os anos, sem excepção, o flagelo dos fogos florestais
ataca Portugal. É assim há anos, só que normalmente não morrem pessoas às
centenas. Este flagelo é previsível, é possível de ser controlado através de acções
concertadas do Estado e através de planeamento efectivo.
Ouvi hoje declarações terríveis dos
nossos líderes. Desde “temos de estar preparados porque vão acontecer mais dias
como os de hoje” até “as populações têm de se defender, não podem esperar pelos
bombeiros”. As férias da Sra Ministra não me merecem comentário. Quanto às
outras declarações, deveriam ser por elas próprias razões para vergonha, senão para
demissão. São outro exemplo do Estado a falhar aos seus cidadãos. Claro que as populações
devem esperar pelos bombeiros! Eu não estou preparado para combater incêndios,
provavelmente faria coisas que não deveria, como correr na direção contraria à
da segurança. Ou conduzir em estradas cercadas pelas chamas.
Como fizeram 100 dos meus concidadãos.
Claro que a demissão do Governo não
resolve o problema. Claro que não. Mas num país civilizado e orgulhoso de si próprio,
a esperteza, a ineficácia e a incompetência não são recompensadas, são punidas.
O Estado deveria ser um exemplo para os seus cidadãos. É importante saber que cidadãos
o Estado quer ter, e essa resposta depende também das próximas horas.
Mas não deveríamos ficar por
aqui.
O problema é também educacional.
O problema é também estrutural. O problema é também judicial.
Nas escolas, desde pequenos,
ensinemos a importância do bem comum e da partilha. Ensinemos a importância da
floresta. Ensinemos que todos temos o dever de proteger o que é de todos e que
todos somos responsáveis. Quanto à estrutura, vamos reler todos os infinitos relatórios
que se seguem às tragedias e vamos tentar implementar algumas das sugestões.
Vamos usar o dinheiro dos contribuintes para treinar mais e melhores bombeiros.
Vamos definir claramente responsabilidades do Governo central, das administrações
locais, da protecção civil, do exército, das polícias. Vamos investir em meios
de combate aos incêndios. Vamos lançar campanhas de sensibilização e educação.
Vamos trabalhar no Inverno para estarmos seguros no Verão. Quanto à justiça,
vamos levar os criminosos a tribunal e punir os culpados. Vamos alterar a
moldura penal se esta não serve.
Diz-se no meu Português que “há males
que vêm por bem”. Típico do ser Português, ter esperança nas horas negras,
acreditar em dias melhores…
Morreram 100 pessoas. Eu digo –
vamos honrá-las! Vamos agir. Vamos exigir. Vamos para a rua, vamos organizar
uma manifestação monumental, em todas as capitais de distrito. Vamos no próximo
Sábado para a rua, marchar em protesto pelo falhanço do Estado. Vamos mostrar
que nós, cidadãos, exigimos mais do Estado. Não contra partidos políticos ou indivíduos,
mas contra a incompetência. Vamos unir o país nesta causa, vamos respeitar os
mortos, vamos lembrar cada um deles como razões para mudar para melhor.
Temos 100 razões para mudar, cada
uma delas com uma cara e uma história. Se os honrarmos, talvez este mal possa
trazer algum bem.
Bruxelas, 16/10/2017

