Festejam-se por estes dias os quarenta anos da Revolução de
Abril, e por acasos do destino, eu estou em Portugal nesta data ao contrário de
anos anteriores. E por isso estou mais exposto às opiniões populares sobre
Abril. O que me leva a dissertar sobre vários pontos:
1.
Abril é um mês. E por acaso é também o mês em
que faço anos e irrita-me a apropriação do nome do mês quando se quer referir à
Revolução. Custa muito dizer “25 de Abril”? Quando nos queremos referir aos
direitos dos trabalhadores alguém diz “Maio”?? Ou à nossa identidade nacional,
alguém diz “Junho”?? O Natal agora é “Dezembro”? Vá, vamos lá chamar as coisas
pelos nomes e deixar de chamar “Abril” a tudo o que seja minimamente
relacionado com a Revolução.
2.
Custa-me muito ver as comparações entre os dias
de hoje e os dias de Estado Novo. Se fossem só feitas por imbecis que não sabem
muito ou por miúdos que repetem o que vêm na TV era uma coisa, mas ouvi-lo de
homens como Vasco Lourenço ou Mário Soares é ainda mais gravoso. São tentativas
inaceitáveis de usar o seu lugar na História nacional para reclamar atenção e
protagonismo, eles mesmos os que dizem que “Abril não tem nomes” são os que
colam o seu nome aos méritos da Revolução e se auto-intitulam seus defensores.
3.
O mesmo povo que apregoa “Abril sempre” é o
mesmo que elege Salazar como o “Maior Português da História”. Este talvez seja
o exemplo maior da hipocrisia lusitana…
4.
Liga-se a televisão e vê-se um número de
programas a comparar Portugal pré 1974 e pós 1974. O que se vê no pré 1974 é um
país paupérrimo, onde a ignorância impera e a pobreza extrema é um dado
adquirido. Eu digo pobreza extrema, miúdos sem sapatos, mulheres a vender peixe
no cimo da cabeça pelas ruas de Lisboa, homens a sair de minas sem qualquer
segurança, etc. E há quem tenha lata de comparar estes dois Portugal?!!?!? É
inegável que ainda há muita pobreza em Portugal e que o país perdeu algumas
boas oportunidades de desenvolvimento, mas qualquer um que tenha um pingo de
honestidade não pode comparar o Portugal de 2014 ao Portugal de 1974.
5.
Fui à Loja do Cidadão esta semana e tive a
experiência traumática de passar quatro horas a ouvir os comentários do
Português comum, no fundo o verdadeiro Povo. O que o Povo diz é chocante e
reflecte o grande problema que ninguém quer ver – a falta de educação do Povo
Português! Quem passar mais de 30 mins junto do Povo vai ouvir inúmeras vezes
insultos a “Eles”, vai ouvir dizer que a culpa é “Deles”, e que quem beneficia “Disto
tudo” são “Eles”. Nunca, mas nunca, há uma identificação de quem são “Eles”,
talvez se usem nomes colectivos como “políticos” ou “banqueiros”, mas é só.
6.
Desresponsabilização. Este é para mim o grande
problema de Portugal. Acontece no dia-a-dia, quando todos nos desculpamos com
os outros “Ah, ele faz e eu não posso?”. Acontece em maior escala com os
problemas do País e a culpabilização dos “Outros”. Este é um fruto dos mais 50
anos de Estado Novo em que a estratégia do Estado era precisamente manter o
Povo ignorante e passar a ideia que o Estado tomava conta deles. Foram gerações
a viver essa ideia e a passá-la aos seus filhos e netos. Ninguém quer aceitar
que tem de tratar dele próprio, todos esperam que o Estado o faça. Isto era
possível em 1960, não o é em 2014!
7.
Acho inaceitável a atribuição de culpas sobre o
estado actual do país ao governo actual quando TODOS sabemos que chegámos aqui
por virtude de sucessivos governos fracos, corruptos e cobardes durante as
últimas décadas. Mais do que atribuir culpas no entanto, deveríamos estar
unidos para enfrentar o presente e preparar o futuro mas o que se vê é
precisamente o oposto.
8.
Aqueles que querem derrubar o governo com o
pretexto de que “este governo viola todos os princípios de Abril e um dia
destes vem aí outra revolução eles que se preparem” esquecem-se de um pormenor:
este governo é legítimo e foi democraticamente eleito através de eleições
livres onde o voto é universal – tudo resultados de Abril! Querer usar Abril
para derrubar Abril é no mínimo esquizofrénico!..
9.
Também fui ao Estádio da Luz, outra experiência
de abrir os olhos… Os tipos atrás de mim começaram ainda ANTES do jogo a
criticar a equipa e continuaram ao longo dos 90 minutos a fazê-lo. Sempre que o
jogador passava a bola eles criticavam porque devia ter rematado, qualquer
substituição era errada “esse gajo não!”, a culpa derivava entre os jogadores o
árbitro e, desde o minuto 1 insistiam que “ainda vamos levar um golo”. Ora pois
o Benfica ganhou mas o adversário marcou e lá se ouviu o comentário da praxe “Eu
não disse, eu bem tinha avisado!!”. Digo isto para ilustrar o problema mais
generalizado daquilo a que chamo o Pessimismo Imbecil. Ora este sentimento
serve para criticar tudo do futebol à política e é usado por aqueles que têm
uma auto-confiança muito baixinha e precisam de se sentir superiores de forma
quase constante. Infelizmente a maioria da população parece sofrer deste
problema.
10.
Eu não quero um novo 25 de Abril. Não quero que
os capitães de 1974 decidam hoje o que deve acontecer no País, não quero
Primeiros Ministros dos anos 80 a ditar a agenda política de hoje. Quero que o
indivíduo comum se mobilize, se constitua alternativa àquilo de que discorda,
quero que se ofereçam soluções e não se fique por apontar os problemas. É fácil
dizer o que está mal mas isso só por si não muda nada! Se sabemos o que está
mal, então vamos lutar para corrigir os erros. Vamos também aceitar que estamos
num país infinitamente melhor àquele de 1974 e vamos pensar em que país
queremos viver em 2054. Vamos aceitar que todos nós temos muito para melhorar e
começar por aí, fazendo todos os dias um pouquinho melhor – se todos fizermos
esse esforço, o país anda para a frente! Vamos deixar de culpar os “Outros” e
pensar no “Eu” e no “Nós” primeiro que tudo, vamos resolver o problema do
prédio, depois da rua, depois do bairro antes de quere resolver os problemas do
Mundo. E vamos votar, vamos escolher os nossos representantes, vamos aderir a
partidos, vamos formar novos partidos, vamos escrever para os jornais, vamos
deixar de ver a Correio da Manhã TV, vamos exigir mais de nós próprios antes de
exigirmos mais dos outros.
Amanhã vou para as ruas de Lisboa. Não vou a
nenhuma manifestação do 25 de Abril, vou procurar uma celebração do 25 de Abril
de 1974 e juntar-me aqueles que quiserem celebrar o dia em que Portugal tornou
possível que cada um pense e aja por si.
Lisboa, 24 de Abril de 2014