Thursday, 2 April 2015

O Mestre

Faleceu hoje aquele a quem chamam o Mestre, o realizador Manoel de Oliveira (MO). Morreu calmamente, em casa no Porto, aos 106 anos.

Ora eu não quero fazer-me passar por um intelectual que não sou, por um cinéfilo que um dia gostava de ser sabendo que esse dia não sou hoje. Fica aqui a minha declaração de interesses – nunca vi um filme inteiro de MO, vi apenas partes, nunca fui ao cinema ver um filme de MO, as partes que vi foi sempre na televisão, e entediei-me de morte a vê-las!

A minha admiração por MO não é pois enquanto apreciador da sua obra, não. A minha admiração deve-se ao que considero ser uma postura de coerência que MO sempre adoptou. MO fez filmes desde os anos 40 tendo estreado a sua última obra em 2014. Quando MO começou a fazer cinema o som nas películas era ainda recente, a cor era ainda uma fantasia distante. Hoje estamos na era do ultra digital, do 3D, do surround sound. Que mais não fosse, MO seria sempre um exemplo pela capacidade de adaptação que demonstrou ao longo da sua carreira e que lhe permitiu assinar obra atrás de obra atravessando todas as tempestades tecnológicas que lhe apareceram pela frente.

E o que eu quero ressalvar é que essa adaptação nunca pôs em causa os princípios e a visão de MO. Os seus filmes estão longe de serem do agrado do público geral (onde eu também me incluo). MO tinha uma visão extremamente teatral, sabia quais eram as histórias que queria contar, nunca pretendeu filmar a vida como ela é no dia-a-dia mas sim como ela existe nas páginas dos livros e peças que o inspiraram. MO foi sempre mais admirado fora de Portugal do que dentro, por um público diferente do que aquele que consome cinema em Portugal. E perante tudo isto, MO raramente criticou o público português, jamais considerou auto exilar-se como vingança pela falta de reconhecimento. E acima de tudo jamais alterou a sua forma de fazer cinema. Ele sabia que as suas histórias seriam criticadas por muitos e entendidas por muito poucos. Mas a sua obra é o grande testemunho de um homem que acreditou em si mesmo e que até ao sopro final aceitou esse encargo de lutar a sua batalha em solitário em nome da sua visão artística e coerência intelectual.

Hoje são milhares aqueles que expressam pesar pela morte do Mestre. Hoje, MO é consensualmente considerado o maior realizador português de sempre. Hoje e sempre – mesmo que nunca tenhamos visto Aniki Bobó, Os Canibais, ou Party – reconheçamos Manoel de Oliveira como um Português exemplar que viveu de forma coerente a vida que sonhou.


ANC
Bruxelas, 02 Abril 2015

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