Depois do esclarecimento acima, torna-se portanto
óbvia a minha intenção ao escrever esta entrada: comentar as acções do
Governo. Quanto à forma. O conteúdo das acções do Governo Passos Coelho é
extremamente controverso, não há ninguém por certo que concorde com aumentos de
impostos e com diminuições de salários e pensões. Infelizmente tenho de admitir
que não tenho conhecimentos de Economia suficientes (passei o exame à cadeira
de Economia apenas na sexta tentativa…)para argumentar se as medidas do Passos
Coelho e Gaspar são correctas ou não ou mesmo se irão produzir resultados
positivos.
No entanto, depois de ler inúmeros artigos e
comentários, depois de ver as notícias das greves e manifestações, interessa-me
expressar publicamente a minha admiração pela determinação deste Governo.
Pela primeira vez desde há muito tempo – talvez a primeira vez desde que tenho
pensamento social e político – vejo um Governo a tomar decisões por crença e
determinação ao invés de as tomar por interesses políticos! Tal facto não é de
menosprezar porque é aí que eu acredito que reside a maior culpa da actual
crise e da falência total da confiança nos políticos. Durante décadas, governos
sucessivos de centro-esquerda e centro-direita, legislaram e governaram ao
sabor da opinião pública, dos oráculos de Domingo à noite, das sondagens e das
notícias de jornal. O objectivo foi sempre o de agradar às massas e ganhar as
próximas eleições. Esse objectivo, tantas vezes alcançado, foi colocado à
frente de medidas corajosas mas impopulares que poderiam ter evitado senão a
crise actual, talvez ao menos limitado a sua dimensão.
Ora o Governo actual governa claramente em
completo desinteresse por uma possível reeleição. Claro que se pode argumentar
que governa em total ignorância ou desprezo do interesse popular, aqueles que
legitimamente o elegeram. Mas esse é um direito que lhe assiste precisamente
devido a essa legitimidade popular. As liberdades dos Portugueses não estão a
ser limitadas – mais uma vez, haverá quem discorde– o Governo não declara
guerra aos vizinhos, não existe um Estado militar ou golpe de Estado, logo o
Governo terá de ser julgado no final do seu mandato através de eleições,
segundo as regras democráticas. Qualquer tentativa para depor o Governo antes
desse período será sempre um golpe à Democracia e um factor a acrescentar à
longa sequência de passos em falso dos nossos líderes políticos. A solução mais
fácil para o Governo seria o de seguir a voz das massas que pretendem o quê:
menos custos e mais benefícios. Pois bem, quem não quer? Qual é o Governo que
insiste na fórmula inversa? Duas opções:
Opção
2 (Governo coerente) – Poucos acreditam
nesta opção mas eu sou um deles. O Governo acredita – acredita na sua política,
acredita na necessidade de reformar, acredita na obrigação de mudar. E fá-lo
contra qualquer instinto de auto-protecção. Para qualquer um dos indivíduos a
tomar decisões, o mais fácil será fazer o que soa melhor e ser amado. As
decisões difíceis são aquelas que são tomadas com a consciência que irão
afectar e magoar alguém. O Governo actual irá perder as próximas eleições mas
claramente não se importa. Os Ministros do Governo estão actualmente a enterrar
as suas carreiras políticas, serão demasiado impopulares para voltar a ser
votados. Ainda assim, e por acreditarem no caminho que decidiram ser o melhor
para Portugal, percorrem o caminho que sabem não ter recompensa.
Eu
não acredito na política enquanto carreira. O objectivo não pode ser a
popularidade ou a próxima vitória eleitoral. Quem se dedica à política deve
fazê-lo por sentido de responsabilidade e por acreditar que pode alterar algo
que acredita pode ser melhorado. Este Governo deveria ser julgado no fim do seu
mandato através do voto popular. Se um dia for lembrado, que seja por ter
colocado o País no rumo certo e ter criado condições para um futuro mais
próspero. E quem prefere reconhecimento a longo termo à adulação imediata tem o
meu respeito.
ANC,
Bruxelas, 09/08/2012