Monday, 8 October 2012

Governo coerente vs Governo Lemming

DISCLAIMER: Esta entrada no blog NÃO pretende avaliar as acções do Governo no seu conteúdo, apenas na forma. Quaisquer discordâncias quanto ao conteúdo pode ser verbalizada em qualquer um dos artigos do Público, na secção Comentário, junto às entradas do Luís de Almada e de outros imbecis que não têm mais para fazer…
Depois do esclarecimento acima, torna-se portanto óbvia a minha intenção ao escrever esta entrada: comentar as acções do Governo. Quanto à forma. O conteúdo das acções do Governo Passos Coelho é extremamente controverso, não há ninguém por certo que concorde com aumentos de impostos e com diminuições de salários e pensões. Infelizmente tenho de admitir que não tenho conhecimentos de Economia suficientes (passei o exame à cadeira de Economia apenas na sexta tentativa…)para argumentar se as medidas do Passos Coelho e Gaspar são correctas ou não ou mesmo se irão produzir resultados positivos.
No entanto, depois de ler inúmeros artigos e comentários, depois de ver as notícias das greves e manifestações, interessa-me expressar publicamente a minha admiração pela determinação deste Governo. Pela primeira vez desde há muito tempo – talvez a primeira vez desde que tenho pensamento social e político – vejo um Governo a tomar decisões por crença e determinação ao invés de as tomar por interesses políticos! Tal facto não é de menosprezar porque é aí que eu acredito que reside a maior culpa da actual crise e da falência total da confiança nos políticos. Durante décadas, governos sucessivos de centro-esquerda e centro-direita, legislaram e governaram ao sabor da opinião pública, dos oráculos de Domingo à noite, das sondagens e das notícias de jornal. O objectivo foi sempre o de agradar às massas e ganhar as próximas eleições. Esse objectivo, tantas vezes alcançado, foi colocado à frente de medidas corajosas mas impopulares que poderiam ter evitado senão a crise actual, talvez ao menos limitado a sua dimensão.
Ora o Governo actual governa claramente em completo desinteresse por uma possível reeleição. Claro que se pode argumentar que governa em total ignorância ou desprezo do interesse popular, aqueles que legitimamente o elegeram. Mas esse é um direito que lhe assiste precisamente devido a essa legitimidade popular. As liberdades dos Portugueses não estão a ser limitadas – mais uma vez, haverá quem discorde– o Governo não declara guerra aos vizinhos, não existe um Estado militar ou golpe de Estado, logo o Governo terá de ser julgado no final do seu mandato através de eleições, segundo as regras democráticas. Qualquer tentativa para depor o Governo antes desse período será sempre um golpe à Democracia e um factor a acrescentar à longa sequência de passos em falso dos nossos líderes políticos. A solução mais fácil para o Governo seria o de seguir a voz das massas que pretendem o quê: menos custos e mais benefícios. Pois bem, quem não quer? Qual é o Governo que insiste na fórmula inversa? Duas opções:
 Opção 1 (Governo Lemming) – o Governo é demente e insiste por gozo em contrariar a vontade popular e tem como objectivo o mal comum. Este seria um governo tipo Lemming, que se faz auto-explodir, suicida. Até é possível, mas a razão que me leva a duvidar desta opção é o apoio internacional. A grande maioria das medidas tão contestadas são revistas e aprovadas por especialistas e instituições internacionais cujo único objectivo é que a situação económica de Portugal enquanto País melhore para que possa pagar os seus compromissos. Mais nada, a Troika e amigos não querem alterar Portugal ou desfigurar o País –pretendem apenas que o rectângulo Luso comece a fazer dinheiro e deixe de ser dependente de outros. Parece-me um objectivo com o qual as massas deveriam concordar. Uma outra razão que me leva a rejeitar a opção 1 é o respeito pelas instituições nacionais. Quando o Supremo Tribunal rejeitou o desaparecimento dos subsídios como pretendido pelo Governo, a medida foi retirada e reinventada de forma a ser concordante com a lei Portuguesa. Claro que é uma engenharia financeira, a mesma prenda mas com embrulho diferente, mas ao menos é legal!
Opção 2 (Governo coerente) – Poucos acreditam nesta opção mas eu sou um deles. O Governo acredita – acredita na sua política, acredita na necessidade de reformar, acredita na obrigação de mudar. E fá-lo contra qualquer instinto de auto-protecção. Para qualquer um dos indivíduos a tomar decisões, o mais fácil será fazer o que soa melhor e ser amado. As decisões difíceis são aquelas que são tomadas com a consciência que irão afectar e magoar alguém. O Governo actual irá perder as próximas eleições mas claramente não se importa. Os Ministros do Governo estão actualmente a enterrar as suas carreiras políticas, serão demasiado impopulares para voltar a ser votados. Ainda assim, e por acreditarem no caminho que decidiram ser o melhor para Portugal, percorrem o caminho que sabem não ter recompensa.
Eu não acredito na política enquanto carreira. O objectivo não pode ser a popularidade ou a próxima vitória eleitoral. Quem se dedica à política deve fazê-lo por sentido de responsabilidade e por acreditar que pode alterar algo que acredita pode ser melhorado. Este Governo deveria ser julgado no fim do seu mandato através do voto popular. Se um dia for lembrado, que seja por ter colocado o País no rumo certo e ter criado condições para um futuro mais próspero. E quem prefere reconhecimento a longo termo à adulação imediata tem o meu respeito.
ANC, Bruxelas, 09/08/2012