O cerco aperta-se à
volta de Putin
As últimas semanas têm sido complicadas para o Presidente
Russo Vladimir Putin, e parece que o futuro também lhe reserva novas
complicações. No passado dia 28 de Julho um tribunal de arbitragem na Haia condenou a
Rússia ao pagamento de 50 mil milhões de dólares em compensações por considerar
que a expropriação do gigante petrolífero russo Yukos foi feita de forma
ilegal. Este foi o maior caso de sempre decidido por um tribunal de arbitragem
– em que as duas partes concordam em ver o caso decidido por um tribunal
neutral – sendo a sanção também a maior de sempre: 50 mil milhões de dólares. O
equivalente ao valor da 5ª maior fortuna do Mundo ou ao custo dos Jogos
Olímpicos de Inverno que Putin organizou este ano em Sochi.
A história conta-se de forma simples. O grupo GML (Group
Manatep Limited), que engloba os maiores accionistas da agora defunta Yukos,
levou o estado Russo a tribunal por considerar que a empresa foi expropriada de
forma ilegal e sem compensação. Em 2003 a Yukos era uma das maiores e mais
dinâmicas empresas russas. Era gerida por Mikhail Khodorkovsky e atraía o
interesse de empresas internacionais como a Exxon ou a Chevron Texaco por ser
considerada um exemplo de gestão responsável numa economia famosa pelas irregularidades
dos seus agentes. É nesta altura que se
dá a muito comentada quebra de relação entre Khodorkovsky e Putin, supostamente
devido às ambições políticas do primeiro visto como um potencial rival por
Putin.
De forma súbita, tanto Khodorkovsky como o seu principal
associado Platon Lebedev são presos, acusados de evasão fiscal e corrupção,
acusações que se estenderam à empresa liderada por ambos. De um momento para o
outro surgem multas exorbitantes por suposta evasão fiscal e, depois de ver os
seus bens apreendidos, a Yukos é forçada a declarar-se insolvente sendo então
desmantelada e vendida a preços irrisórios à companhia estatal russa Rosneft.
Khodorkovsky cumpriu dez anos de cadeia na Sibéria tendo sido libertado apenas
em Dezembro de 2013.
A novidade deste caso tem mais a ver com a sua resolução do
que com a disputa em si. Sendo que nenhuma das partes encontrou uma base de
entendimento com a outra, decidiu-se usar o sistema de arbitragem. Cada parte
nomeou a sua equipa de advogados e um juiz sendo que o Tribunal Permanente de
Arbitragem, com assento na Haia, Holanda, nomeou o juiz presidente. A decisão
anunciada esta semana não deixa espaço para dúvidas – o Tribunal considerou que
o estado Russo desmantelou a empresa Yukos deliberadamente e por motivações
políticas, condenando a Rússia a ressarcir os investidores da Yukos no montante
de 50 mil milhões de dólares. Mais! O Tribunal estipulou que o grupo GML tem a
legitimidade de se apropriar de bens pertencentes ao estado russo caso este
decida não pagar a compensação atribuída, o que, em teoria significa, que pode
requerer o confisco de bases petrolíferas, oleodutos ou outras infraestruturas
pertencentes à Rússia fora das suas fronteiras.
Para além do precedente óbvio que poderá levar outros a
procurar compensações pelas privatizações escandalosas na Rússia pós-soviética,
entra aqui também um novo elemento que importa destacar. Até agora os países
europeus – e a um nível menor os EUA – evitaram o conflito directo com a Rússia
devido às estreitas ligações económicas. No caso europeu, a situação de
dependência energética tende a sobrepor-se a outras considerações, sejam elas
políticas ou morais. Putin parece estar seguro na sua redoma Kremliniana onde
ninguém lhe pode tocar e de onde ele pode mover as suas peças num jogo de
xadrez geopolítico. Mas essa aura de invencibilidade parece estar agora a
desfazer-se.
Ao ceder aos seus impulsos expansionistas Putin poderá
ter-se exposto mais do que alguma vez tenha feito antes. A Europa até pode ter
olhado para o outro lado quando a Rússia anexou a Crimeia. A Europa até pode
ter apenas imposto sanções sem grande significado quando a Rússia patrocinou os
movimentos separatistas na Ucrânia. Mas quando 298 inocentes perderam a vida a
bordo do avião da Malaysia Airlines, os dedos acusadores viraram-se na direcção
de Moscovo. Foram vários os líderes mundiais a implicar directamente Putin no
desastre do voo MH17, e os média internacionais não hesitaram em chamar
criminoso e assassino ao líder russo.
O Mundo parece estar a acordar da sua letargia e a assumir a
responsabilidade, mostrando finalmente coragem de confrontar Putin e exigir-lhe
- a ele e ao país que dirige com mão de ferro - que se comporte de acordo com a
lei internacional. O caso GML é mais um passo nessa direcção que se quer
inevitável e que pretende que a justiça vença sobre o poder e o medo. Talvez um
dia olhemos para trás e recordemos 2014 como o ano em que a redoma de Putin se
começou a quebrar.
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