Thursday, 16 January 2014

O meu Avô em Pelotas

Se forem daqueles, como eu, que gostam de arquitectura então têm de conhecer a estação rodoviária de Pelotas!

Acabei em Pelotas porque não havia autocarros que fizessem a ligação entre Chui na fronteira com o Uruguai e Porto Alegre, o meu destino final do dia. O melhor que se arranjou foi um desvio por Pelotas e daí a ligação à capital do Rio Grande do Sul. Devo ter estado uma hora no máximo na cidade, e toda ela passada na estação rodoviária – mas valeu a pena porque para além da viagem no espaço, fiz também uma viagem no tempo.

Não sendo de todo um expert em arquitectura não sei precisar em que período terá sido construída a rodoviária – provavelmente anos 60 ou 70. Sei que a estação tinha aquele look “Estado Novo” que as nossas estações em Portugal costumavam ter. Sei que, de um momento para o outro, me senti de novo com 6 anos de idade no Fundão, sei que aquela estação era por dentro igual a tantas outras que já não existem em Portugal. Não é saudosismo, sei que as nossas estações evoluíram e tornaram-se mais práticas e confortáveis, mas o preço que pagámos por isso foi o abdicar daquele charme retro.


O exterior daquela estação talvez seja o que a torna única já que duvido que haja muitas estações construídas na forma de pagode chinês no interior Brasileiro... Mas o mais fascinante não era o exterior mas sim o interior. Por dentro havia todo um mundo a explorar! Com dois andares, a ligação entre os dois é feita não por escadas rolantes ou elevadores, mas por old-school rampas em espiral. Como uma criança, eu só queria correr para cima e para baixo, ou junto ao ângulo interior para reduzir o esforço da ascensão ou numa correria desenfreada por ali abaixo, junto ao rail exterior olhando para baixo e vendo em círculo os passageiros em trânsito. As bilheteiras não tinham microfones para filtrar a conversa entre passageiro e funcionário, tinham sim aquela imagem de janela mágica em que se forem ditas as palavras certas se ganha como prémio o bilhete para um qualquer destino exótico e distante. Os lavabos não eram brancos e anti-sépticos (como deveriam ser, claro) mas tinham um qualquer encanto particular, um cheiro discreto a naftalina, luz vinda das janelas e mais espaço do que se encontra hoje em tais sítios. A estação duplica também como centro comercial, aproveitando as horas de intervalo entre ônibus que entram e saem. Mas não lojas modernas e atraentes, essas não pertencem aí. As lojas da estação rodoviária de Pelotas são também elas imunes à passagem do tempo, relíquias de tempos já passados. Tenho a impressão que não vendem qualquer produto há décadas e no entanto ali estão, estóicas, porque na verdade, para onde iriam se não estivessem ali? Quem as queria?...

Mas a piece de résistance de toda aquela experiência foi o que encontrei nas lanchonetes lá do sítio. Sim, tinham comida, bebida, snacks e pessoas atarefadas com fome. Mas o que elas tinham que me ficou colado aos olhos era aqueles quadros grandes a anunciar os produtos em venda e os preços, aqueles quadros negros em que se colocam as letrinhas brancas ou amarelas e em frente os números que compõem os preços – lembram-se?? Quando eu era míudo no Fundão, todos os estabelecimentos tinham aqueles quadros, todos os bancos tinham os câmbios anunciados naqueles quadros, todas as estações tinham os horários das partidas e chegadas naqueles quadros. E aí lembrei-me do meu avô e senti muita mas muita saudade dele. O meu avô era o meu companheiro de passeios quando eu era garoto, quem me levava à rua para parar de chatear as pessoas em casa. Passávamos pelos bancos e ele mostrava-me o quadro dos câmbios e eu decorava as bandeiras dos países e as moedas correspondentes. De vez em quando ele testava-me e quando eu acertava na bandeira do Canadá ou na moeda do Japão, então sentia um orgulho enorme e uma curiosidade infinita de viajar e ir conhecer esses lugares. Ou então íamos até à Auto-Transportes, a rodoviária local, e víamos aquelas bestas motorizadas que chegavam e partiam sabe-se lá de onde e para onde, cheios de gente a carregar bagagens e a transbordar emoções. E lá estavam os tais quadros pretos com as letrinhas a contar-nos das chegadas e das partidas. Mas do que me lembro melhor era das tardes no Café Cine, sentados na esplanada, junto à Avenida. Era ali que o meu Avô era Rei, era ali o seu trono. Dali, parecia-me a mim, ele controlava a rua, a cidade, c´os diabos, controlava o Mundo!! Eu sentava-me ao lado dele e via e escutava como ele comentava as notícias do jornal; como ele cumprimentava as pessoas que passavam, conhecendo todas sem excepção; como era atencioso para o Sr. Prior que ia a caminho da Igreja e parava na nossa mesa para um rápido monólogo do estilo: “como está o rapaz? Espero ver-te lá na missa no Domingo! Ai este rapaz...”. De como ele chamava o empregado e me dizia para pedir o que quisesse – um rápido olhar para o quadro negro mágico e uma leitura das suas letrinhas e, invariavelmente, saía uma torrada. Que saudades desses dias em que víamos a vida e o tempo a passar pelo Fundão da primeira fila e com direito a lanche.


Foram essas memórias que me vieram à cabeça naquela estação rodoviária perdida em Pelotas. E é por isso que vou continuar à procura de lanchonetes com quadros negros com letrinhas e números – para mim são sinais de qualidade!!

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