Se forem daqueles, como eu, que
gostam de arquitectura então têm de conhecer a estação rodoviária de Pelotas!
Acabei em Pelotas porque não
havia autocarros que fizessem a ligação entre Chui na fronteira com o Uruguai e
Porto Alegre, o meu destino final do dia. O melhor que se arranjou foi um
desvio por Pelotas e daí a ligação à capital do Rio Grande do Sul. Devo ter
estado uma hora no máximo na cidade, e toda ela passada na estação rodoviária –
mas valeu a pena porque para além da viagem no espaço, fiz também uma viagem no
tempo.
Não sendo de todo um expert em arquitectura não sei precisar
em que período terá sido construída a rodoviária – provavelmente anos 60 ou 70.
Sei que a estação tinha aquele look “Estado Novo” que as nossas estações em
Portugal costumavam ter. Sei que, de um momento para o outro, me senti de novo
com 6 anos de idade no Fundão, sei que aquela estação era por dentro igual a
tantas outras que já não existem em Portugal. Não é saudosismo, sei que as
nossas estações evoluíram e tornaram-se mais práticas e confortáveis, mas o
preço que pagámos por isso foi o abdicar daquele charme retro.
O exterior daquela estação talvez
seja o que a torna única já que duvido que haja muitas estações construídas na
forma de pagode chinês no interior Brasileiro... Mas o mais fascinante não era
o exterior mas sim o interior. Por dentro havia todo um mundo a explorar! Com
dois andares, a ligação entre os dois é feita não por escadas rolantes ou
elevadores, mas por old-school rampas
em espiral. Como uma criança, eu só queria correr para cima e para baixo, ou
junto ao ângulo interior para reduzir o esforço da ascensão ou numa correria
desenfreada por ali abaixo, junto ao rail exterior olhando para baixo e vendo
em círculo os passageiros em trânsito. As bilheteiras não tinham microfones
para filtrar a conversa entre passageiro e funcionário, tinham sim aquela
imagem de janela mágica em que se forem ditas as palavras certas se ganha como
prémio o bilhete para um qualquer destino exótico e distante. Os lavabos não eram
brancos e anti-sépticos (como deveriam ser, claro) mas tinham um qualquer
encanto particular, um cheiro discreto a naftalina, luz vinda das janelas e
mais espaço do que se encontra hoje em tais sítios. A estação duplica também
como centro comercial, aproveitando as horas de intervalo entre ônibus que
entram e saem. Mas não lojas modernas e atraentes, essas não pertencem aí. As
lojas da estação rodoviária de Pelotas são também elas imunes à passagem do
tempo, relíquias de tempos já passados. Tenho a impressão que não vendem
qualquer produto há décadas e no entanto ali estão, estóicas, porque na
verdade, para onde iriam se não estivessem ali? Quem as queria?...
Mas a piece de résistance de toda aquela experiência foi o que encontrei
nas lanchonetes lá do sítio. Sim, tinham comida, bebida, snacks e pessoas
atarefadas com fome. Mas o que elas tinham que me ficou colado aos olhos era
aqueles quadros grandes a anunciar os produtos em venda e os preços, aqueles
quadros negros em que se colocam as letrinhas brancas ou amarelas e em frente
os números que compõem os preços – lembram-se?? Quando eu era míudo no Fundão,
todos os estabelecimentos tinham aqueles quadros, todos os bancos tinham os
câmbios anunciados naqueles quadros, todas as estações tinham os horários das
partidas e chegadas naqueles quadros. E aí lembrei-me do meu avô e senti muita
mas muita saudade dele. O meu avô era o meu companheiro de passeios quando eu
era garoto, quem me levava à rua para parar de chatear as pessoas em casa.
Passávamos pelos bancos e ele mostrava-me o quadro dos câmbios e eu decorava as
bandeiras dos países e as moedas correspondentes. De vez em quando ele
testava-me e quando eu acertava na bandeira do Canadá ou na moeda do Japão,
então sentia um orgulho enorme e uma curiosidade infinita de viajar e ir
conhecer esses lugares. Ou então íamos até à Auto-Transportes, a rodoviária
local, e víamos aquelas bestas motorizadas que chegavam e partiam sabe-se lá de
onde e para onde, cheios de gente a carregar bagagens e a transbordar emoções. E
lá estavam os tais quadros pretos com as letrinhas a contar-nos das chegadas e
das partidas. Mas do que me lembro melhor era das tardes no Café Cine, sentados
na esplanada, junto à Avenida. Era ali que o meu Avô era Rei, era ali o seu
trono. Dali, parecia-me a mim, ele controlava a rua, a cidade, c´os diabos,
controlava o Mundo!! Eu sentava-me ao lado dele e via e escutava como ele
comentava as notícias do jornal; como ele cumprimentava as pessoas que
passavam, conhecendo todas sem excepção; como era atencioso para o Sr. Prior
que ia a caminho da Igreja e parava na nossa mesa para um rápido monólogo do
estilo: “como está o rapaz? Espero ver-te lá na missa no Domingo! Ai este
rapaz...”. De como ele chamava o empregado e me dizia para pedir o que quisesse
– um rápido olhar para o quadro negro mágico e uma leitura das suas letrinhas
e, invariavelmente, saía uma torrada. Que saudades desses dias em que víamos a
vida e o tempo a passar pelo Fundão da primeira fila e com direito a lanche.

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