Caro leitor,
Desde já agradeço a atenção de estar a ler os meus escritos. Com tanta literatura disponível é de prezar que tenha escolhido oferecer uns minutos da sua vida a ler o que eu tenho para dizer. Estou a escrever estas linhas esticado no meu sofá Ikea novo no meu apartamento de solteirão em Bruxelas. E estou a escrever este texto precisamente porque sinto a necessidade de partilhar os meus pensamentos com alguém. Claro que posso ligar a um dos meus amigos e fazê-los ouvir o que tenho para dizer, mas em boa verdade, a grande vantagem que o estimado leitor para mim representa é precisamente o facto de não me conhecer. Os meus amigos, esses, já me conhecem bem e duvido seriamente que ainda tenham paciência para me dedicar o mesmo nível de atenção.
Há uma ideia que me tem apertado o espírito nas últimas semanas. Uma pequena introdução é agora necessária: acabei há uns dias de ler o livro “O Mundo é Fácil” escrito pelo Gonçalo Cadilhe. O livro tem como objectivo incentivar o jovem leitor a esquecer os seus medos e arregaçar mangas, viajando pelo Mundo fora num processo de descoberta do que o rodeia mas também num processo de auto-descoberta. O livro foi-me dado pelos meus pais no Natal de 2010. Os meus pais são possuidores de uma sabedoria sem limites e quiseram que eu “aprendesse” também a viajar, que eu conhecesse quem seguiu o seu sonho e fez das viagens um modo de vida e uma forma de ganhar a vida. Confesso que assim que li as primeiras linhas do livro achei que se iam confirmar os meus preconceitos – mas quem é este gajo para me ensinar a mim o que é viajar, há-de ser um puto surfista com mania que escreve umas baboseiras sobre as viagens que teve a sorte de fazer. Essa ideia foi no entanto desaparecendo com o passar das páginas, à medida que os capítulos se desfolhavam em frente aos meus olhos. Talvez por uma ironia que é difícil de explicar, o grande avanço que dei ao livro aconteceu no aeroporto de Zaventem, enquanto esperava pelo voo que me ia levar de casa a casa, ou seja, de Bruxelas a Portugal. O que escrevo não pretende ser uma crítica literária – tenho grandes dúvidas sobre os comentários dos especialistas que descrevem a experiência tão pessoal que é a leitura de um bom livro – mas sim uma partilha com o estimado leitor do efeito que teve em mim a leitura do “Mundo é Fácil”.
Pelos vistos também eu faço parte do público-alvo deste livro. Porque também eu quero viajar, também eu me sinto limitado pelos meus medos, e também eu estou à espera que as coisas aconteçam quando talvez devesse ser eu a forçar a acção. Mas agora decidi que já chega. Não espero mais. Não tenho mais medo. Tenho agora 29 anos, e o tempo não dá indicações de ter intenções de parar de passar! Tenho um bom emprego em Bruxelas, a fazer algo para o qual até tenho algum jeito. Mais que isso, tenho um grupo de amigos que são a minha família aqui distante de casa, são quem me conhece aqui e são o meu apoio nas boas e nas menos boas alturas. Resumindo, tenho uma vida agradável e estável. E aqui é que está o meu problema com a minha vida: é demasiado estável! Muito sinceramente o meu mês de Março foi igual ao mês de Novembro. E quer-me parecer que o Maio que se aproxima não vai ser particularmente diferente. Claro que é fácil ir-me deixando arrastar pela monotonia e pela letargia, é a decisão mais confortável. Mas isso é precisamente o que eu tenho feito nos últimos tempos, tenho fugido a tomar decisões radicais e tenho aceite o que vem na minha direcção.
Pois bem, sinto agora dentro de mim um grande desejo de mudança, de excitação, de aventura, de dúvidas, de perguntas e de respostas. Quero sair, enfrentar o desconhecido, ir por onde ainda não andei, ver o que há por aí nesse Mundo fora. Estou decidido a deixar o meu emprego, a deixar os meus amigos e tirar uns meses de “férias”. A ideia de acordar e não ter que vestir o fato e ir ao escritório começa a tomar conta de mim, também por começar cada vez mais a parecer uma ideia realizável. Apaixona-me não ter horários, não ter responsabilidades, não ter que prestar contas a ninguém que não a mim mesmo. Quero fazer uma grande viagem de descoberta, descobrir o Mundo mas mais que isso descobrir-me a mim também, saber quem sou, do que sou capaz, quais são os meus limites. E não tenho medo, quando voltar a realidade onde vivo hoje ainda vai cá estar, os meus amigos ainda me vão receber de braços abertos, e vou de certeza encontrar um outro sítio onde possa trabalhar. Mas o momento não é de respostas, é de perguntas. E eu tenho duas: Quando vou partir? E para onde? Assim que souber, descanse o estimado leitor, será dos primeiros a saber!!
ANC, Bruxelas, 27 Abril 2011
Caro escritor: excelente partilha. Espero que passe por estes lados. Quem lhe escreve é alguém que não teve medo de mudar de lugar, deixar amigos e família e simplesmente espreitar as oportunidades que andam por aí. Não tenha medo e vá traçando o seu plano, passo a passo.
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